terça-feira, 13 de março de 2012

ENTREVISTA - DOM JOSÉ LUIZ FERREIRA


O Papa Bento XVI nomeou Dom José Luiz Ferreira bispo da Diocese de Pesqueira, que abrange os municípios de Jataúba, Brejo da Madre de Deus, Belo Jardim, Sanharó, Poção, Pesqueira, Alagoinha, Venturosa, Arcoverde, Pedra, Buíque, Tupanatinga e Sertânia. Depois de quase dois anos sem um bispo, católicos da região aguardam com ansiedade o novo líder espiritual, cuja posse está marcada para o dia 14 de abril. Atualmente morando em Fortaleza, Dom José conversou com o repórter Pedro Romero sobre esse novo desafio e sobre os projetos que a Igreja Católica pretende desenvolver na região.

JORNAL DO COMMERCIO - Como o senhor recebeu a nomeação do papa para assumir a Diocese de Pesqueira? Foi uma surpresa?


DOM JOSÉ LUIZ FERREIRA - É sempre uma surpresa, porque a preocupação maior no dia a dia não é quando vai ser transferido, mas o trabalho pelo Reino. Na Igreja, o padre e o bispo são missionários a serviço do evangelho. Tenho falado por aqui que só mudo de quarto, a casa é a mesma. Em carta escrita à nunciatura aceitando o pedido escrevi: "Acolho a nomeação como um servidor da Igreja, confiando que a bondade e a graça de Deus não hão de me faltar nesta nova missão".

JC - O senhor vai coordenar o trabalho da Igreja Católica em 13 cidades do Agreste. Como encara esse desafio?

DOM JOSÉ - O bispo não é pastor de uma diocese sozinho. Os padres, religiosos, religiosas e leigos são colaboradores no ministério episcopal. Conto ainda com os irmãos bispos do Regional NE 2. Juntos, abertos à voz do espírito, saberemos discernir os caminhos de Deus. Tenho consciência de que já existe uma Igreja viva, atuante, presente nas diversas realidades da diocese. Cabe àquele que chega, conhecer, somar, animar uma missão que não começa agora, mas que já tem uma caminhada de 93 anos de história.

JC - O senhor conhece alguma das cidades que fazem parte da diocese?

DOM JOSÉ - As cidades da diocese não são desconhecidas para mim. Morei por nove anos em Garanhuns, onde fui missionário. Estive na Diocese de Pesqueira várias vezes e tive a oportunidade de passar por algumas paróquias, como na ocasião da peregrinação da imagem de Nossa Senhora Aparecida, em agosto de 1988. A cidade de Arcoverde é a que mais conheço, pois fomos responsáveis pela paróquia de São Cristovão vários anos.

JC - Quando e como foi a experiência em Garanhuns?

DOM JOSÉ - Foi uma experiência riquíssima. Fiquei de 1988 a 1996 trabalhando nas missões populares. Tinha apenas dois anos de padre, vinha de São Paulo para aprender, para beber dessa fé e religiosidade do povo nordestino. Ainda estava em atividade nosso querido Frei Damião. Aprendi a ser padre e missionário nessa experiência de Garanhuns. Andei por Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará, pregando missões em realidades de desafios pastorais e sociais bem específicas. Foi um tempo que marcou muito minha vida.

JC - Fale um pouco sobre a sua vida. Onde nasceu? Como foi a vida religiosa?

DOM JOSÉ - Nasci no dia 23 de janeiro de 1957, na cidade de Itirapina (SP), e em 1970 entrei para a Congregação do Santíssimo Redentor (Redentoristas). Fiz minha profissão religiosa em 1982 e fui ordenado sacerdote em 1985. Trabalhei dois anos nas Missões Populares, em Tietê (SP). De 1993 a 1995 fui conselheiro na Vice-Província do Recife e de 1996 a 2004 fui superior vice-provincial da Vice-Província Redentorista de Recife. Também trabalhei na Diocese de Campina. Em 2005, fui nomeado reitor da casa de Teologia Inter-Provincial dos Missionários Redentoristas em Fortaleza. Em 2006, fui nomeado pelo Papa Bento XVI Bispo Auxiliar de Fortaleza, sendo ordenado na capital cearense em março do mesmo ano.
JC - Em sua opinião, qual deve ser a missão da Igreja Católica nos tempos atuais?

DOM JOSÉ - Gosto muito do que fala o Concílio Vaticano II, no decreto Apostolicam actuositatem: "A missão da Igreja não consiste só em levar aos homens a mensagem de Cristo e sua graça, senão também em penetrar do espírito evangélico as realidades temporais e aperfeiçoá-las". Parafraseando a Evangelii Nuntiandi, números 14 e 80, digo que a missão da Igreja é evangelizar sob ação do Espírito Santo, com alegria, mesmo entre lágrimas, pois evangelizar constitui a graça e vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda.

JC - Como as igrejas podem contribuir para questões globais, como a preservação ambiental ou a busca pela paz?

DOM JOSÉ - Creio que a Igreja tem contribuído muito nas questões sociais, pois como diz o Papa Bento XVI na Carta Encíclica Deus Caritas Est, nº 25: "Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência'. A Igreja sempre se coloca nas fronteiras da evangelização no mundo dos pobres e marginalizados. Hoje, como no tempo de Jesus, as multidões pobres estão "cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor". Ressalto, ainda, as Campanhas da Fraternidade que, ao longo de décadas, vêm levando a sociedade a discussões de assuntos relevantes para o bem comum. Assuntos como o tráfico de seres humanos, trabalho escravo, migrações, a situação da população de rua e outros semelhantes estão, hoje, no coração da Igreja cuja grande colaboração, acredito, é à luz da Palavra de Deus anunciar que Ele é Pai de todos e que violar a vida humana, da sua concepção à morte, é ferir o coração de Deus.


JC - O senhor se considera um religioso progressista ou conservador?

DOM JOSÉ - Não acho interessante esse chavão. A pessoa humana é muito complexa para ser definida com uma única palavra. Ao invés de progressista ou conservador gostaria de ser definido com um texto da Gaudium et Spes: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens (e das mulheres) de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. (GS 1). Um bispo deverá sempre ser um bom pastor, segundo Jesus, que deu a vida pelo rebanho.

JC - Como é o Deus em que o senhor acredita?

DOM JOSÉ - Acredito no Deus amoroso, compassivo e misericordioso. É por isso que escolhi como lema de meu episcopado "Deus é Amor". Esse Deus, como lembra Santo Afonso, fundador dos Missionários Redentoristas, em seus escritos, é um Deus dos contrastes que em Jesus vem cativar irresistível e livremente cada um de nós. O verbo feito carne, o grande feito pequeno, o Senhor convertido em escravo, o forte feito frágil, o rico feito pobre, o excelso humilhado.

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